José Mendes Cabeçadas Júnior – Pela República!
«Saúde e boa disposição não tem faltado. Estou em Santarém e agora engavetaram-me. Espero que não seja por muito tempo».
Foi com estas palavras escritas numa carta dirigida à mulher, Maria das Dores, que José Mendes Cabeçadas Júnior a informou que tinha sido preso pelas forças fiéis ao governo de António Maria da Silva.
Estávamos a 29 de maio de 1926 e, na véspera, Manuel Gomes da Costa tinha deixado Braga em direção a Lisboa, ao comando de uma força militar que ajudaria a pôr fim à I República.
Apesar de ser o líder inicial do movimento, e de ter mesmo assumido a chefia do Ministério e do Estado, rapidamente Mendes Cabeçadas foi ultrapassado por dois outros protagonistas, porta-vozes da fação mais radical do golpe: Manuel Gomes da Costa e Óscar Carmona.
Republicano convicto, Cabeçadas tinha, por essa altura, já um percurso político significativo, embora discreto: fora um dos protagonistas do 5 de Outubro de 1910, revoltando o cruzador Adamastor; deputado à Assembleia Constituinte; deputado do Congresso da República e governador civil de Faro, militando em organizações como o Partido Unionista, o Partido Liberal, o Partido Republicano Nacionalista e a União Liberal Republicana.
Nos últimos anos da década de 1920, a República estava por um fio: perante a degradação política do regime, os boatos de uma intervenção militar sucediam-se. Conspirava-se abertamente.
Na madrugada de 19 de julho de 1925, decorridos apenas três meses de um outro golpe liderado por nacionalistas e monárquicos (18 de abril), Mendes Cabeçadas dava corpo a essas intenções, iniciando uma revolta, desta vez a bordo do cruzador Vasco da Gama.
Alguns oficiais do Exército e da Marinha aliaram-se, então, para pôr fim ao governo de António Maria da Silva, mas acabaram por soçobrar, horas depois, enfrentando os calabouços e, depois, o tribunal militar. Cabeçadas era um deles.
Meses depois, a 9 de novembro, no decorrer do julgamento dos implicados, o capitão-de-mar-e-guerra apresentava a sua defesa:
«Foi […] com o maior entusiasmo e animado do mais puro patriotismo que, em outubro de 1910, tomei parte na revolução que implantou a República. […] Passaram-se 15 anos, e que triste desilusão! […] Compreendem v. ex.as com as minhas responsabilidades no 5 de Outubro, a dor que me amargurava, ao sentir a República despenhar-se por um abismo que não via fim. […] O que me levou a bordo do Vasco da Gama foi o medo de ver a nossa Pátria afundar-se sem remédio. Se v. ex.as me condenarem, condenam o meu sentimento patriótico e republicano» (in «Diário de Lisboa»).
Absolvido do crime de traição, Mendes Cabeçadas continuaria, no entanto, a conspirar para regenerar a República.
Em janeiro de 1926, no semanário católico «A Ordem», perguntava-se: «Caminha-se, a toda a velocidade, para uma ditadura. Quem será o Mussolini português?». Cabeçadas encontrava-se entre os nomeados pelo periódico. Mas seria essa a proposta deste protagonista do 5 de Outubro?
A proclamação da Junta Revolucionário do 19 de Julho dá-nos algumas pistas: com o propósito de fundar «uma República digna, tolerante e integrada na civilização moderna», propunha-se a existência de uma junta de salvação pública, até à formação de um novo governo, «para assegurar a manutenção da ordem e a sequência regular do regime constitucional».
Meses depois, a poucas semanas do 28 de Maio, Cabeçadas foi um 48 oficiais subscritores de um compromisso assinado em Coimbra, que pretendia reunir num documento as várias propostas para a futura atuação do movimento militar.
Nele, afirmava-se a defesa do regime republicano e a formação de um governo de individualidades civis e militares presidido por um oficial general ou superior do Exército ou da Armada, em quem devia ser reconhecido o seu «republicanismo indiscutível» e «carácter impoluto».
Mendes Cabeçadas era, assim, partidário de uma alternativa conservadora, reformadora, mas mantendo a continuidade do poder constitucional e liberal, abrindo as portas para uma «ditadura temporária», caso os acontecimentos assim o determinassem.
Por isso, quando, a 30 de maio de 1926, o Presidente Bernardino Machado nomeou Cabeçadas presidente do Ministério e da Marinha e, interinamente, de todas as pastas, tendo-lhe, no dia seguinte, transmitido os seus próprios poderes de Chefe do Estado, acreditava que a República ficaria «em boas mãos».
A História veio a provar o contrário: a fação conservadora antiliberal e antidemocrática do golpe vingou, e Mendes Cabeçadas – considerado, por alguns dos envolvidos, comprometido com o poder político – assinaria o decreto da sua própria exoneração a 17 de junho.
Mas não desistiu da República. Anos depois, em 1945, eis que o encontramos de novo, desta vez juntando-se às hostes da oposição ao Estado Novo.
O seu currículo é extenso: apoiante do MUD; presidente da Junta Militar de Libertação Nacional (1946), do Diretório da Causa Republicana (1955) e da Frente Nacional Liberal e Democrata (1956); signatário do «Pacto de Almada» (1946), que propunha a deposição de Salazar; elemento das comissões de apoio às candidaturas de Quintão Meireles (1951) e de Humberto Delgado (1958); impulsionador da Organização Cívica Nacional (1951); candidato pela oposição democrática às eleições para a Assembleia da República (1953); subscritor do Programa para a Democratização da República (1961) e colaborador do Diretório da Ação Democrato-Social.
Em junho 1947, por decisão do Conselho de Ministros, é reformado compulsivamente, acusado de liderar a falhada tentativa de golpe militar de 10 de abril desse mesmo ano, que pretendia fazer regressar ao país o espírito inicial do 28 de Maio de 1926 e restaurar as liberdades democráticas.
Condenado pelo Tribunal Militar de Lisboa a um ano de prisão correcional, viveria praticamente até ao fim da vida sob o escrutínio da PIDE. Nem mesmo o seu funeral (1965), que contou com a presença de vários oposicionistas, escaparia à vigilância da polícia política.
No «Diário de Lisboa» de 12 de junho de 1965, um elogio fúnebre enaltecia a «sua intransigente fidelidade aos princípios da democracia e às instituições republicanas», apresentando Cabeçadas como um «exemplo de virtudes cívicas e coerência política mantida como pendão de honra, dignidade e aprumo».
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